Ronco e Apneia do Sono: causas, riscos e o tratamento que pode mudar a sua vida (sem CPAP)

Odontologia do Sono · Apneia Obstrutiva · Tratamento

Você — ou alguém que você ama — ronca toda noite, acorda sem energia, tem dores de cabeça pela manhã ou nunca se sente verdadeiramente descansado? Saiba que isso pode ser muito mais do que um simples incômodo: pode ser apneia obstrutiva do sono, uma condição médica séria com tratamentos eficazes e acessíveis.

 
Dr. Victor Ferzeli
Especialista em DTM e DOF · Capacitado em Ronco e Apneia · Mestre em Prótese

Neste artigo

  1. O que é ronco e por que ele acontece
  2. Apneia do sono: quando o ronco esconde algo mais grave
  3. Sintomas e consequências para a saúde
  4. Diagnóstico: a polissonografia
  5. Tratamentos disponíveis
  6. Aparelho de Avanço Mandibular (AAM): a alternativa ao CPAP
  7. Quem pode se beneficiar do AAM
  8. A consulta de avaliação

 

O que é o ronco e por que ele acontece?

O ronco é produzido pela vibração das estruturas moles da garganta — palato mole, úvula e base da língua — quando o fluxo de ar encontra resistência ao passar pelas vias aéreas superiores durante o sono. Em posição deitada, a musculatura da faringe relaxa, estreitando o espaço por onde o ar circula. Esse estreitamento gera turbulência e, consequentemente, o som característico.

O ronco é altamente prevalente: estima-se que afete entre 30% e 40% dos adultos, com maior incidência em homens acima de 40 anos, mulheres pós-menopausa e pessoas com sobrepeso. Porém, o ronco não é apenas um problema social — noites mal dormidas, constrangimentos em viagens, cônjuges que migram para outros quartos, sonolência ao volante. O ronco pode ser o sinal de alerta de uma condição bem mais séria.

Atenção: estudos indicam que o ronco habitual está associado a risco aumentado de hipertensão arterial e doenças cardiovasculares, mesmo na ausência de apneia diagnosticada. Ignorar o ronco não é uma opção segura.

 

Apneia do sono: quando o ronco esconde algo mais grave

A Síndrome da Apneia e Hipoapneia Obstrutiva do Sono (SAHOS) é caracterizada pela interrupção repetida da respiração durante o sono por colapso das vias aéreas superiores, com duração mínima de 10 segundos cada episódio e persistência do esforço respiratório — o que a distingue da apneia central, em que o esforço também cessa.

Segundo a American Academy of Sleep Medicine (AASM), a apneia obstrutiva do sono afeta aproximadamente 936 milhões de adultos em todo o mundo com algum grau de gravidade, sendo que a maioria permanece sem diagnóstico. No Brasil, estudos epidemiológicos apontam prevalência de 32,8% na população adulta urbana.

  • 936M adultos afetados no mundo
  • 32,8% prevalência em adultos brasileiros
  • 80% dos casos permanecem sem diagnóstico
  • 3x mais risco de acidente de trânsito

Classificação por gravidade

A apneia é classificada pelo Índice de Apneia-Hipoapneia (IAH), que conta o número de eventos por hora de sono:

  • Leve: 5 a 14 eventos/hora
  • Moderada: 15 a 29 eventos/hora
  • Grave: 30 ou mais eventos/hora

 

Sintomas que você não deveria ignorar

A apneia do sono é traiçoeira porque acontece quando você está inconsciente. Ao despertar, o episódio já passou — você não lembra de ter parado de respirar. São as consequências diurnas e noturnas que denunciam a doença:

  • Ronco alto e irregular
  • Pausas na respiração relatadas pelo parceiro(a)
  • Acordar com engasgo ou sufocamento
  • Sonolência excessiva durante o dia
  • Dores de cabeça matinais
  • Boca seca ao acordar
  • Dificuldade de concentração e memória
  • Irritabilidade e alterações de humor
  • Queda na libido e disfunção erétil
  • Nictúria (urinar frequentemente à noite)
  • Sono não reparador mesmo dormindo horas suficientes
  • Hipertensão de difícil controle

 

Você reconhece esses sintomas em si mesmo ou em alguém próximo?

A sonolência diurna excessiva, por exemplo, está diretamente relacionada à fragmentação do sono causada pelas apneias — o cérebro desperta brevemente a cada episódio para retomar a respiração, impedindo que você alcance os estágios mais profundos e restauradores do sono.

 

As consequências vão muito além do cansaço

A privação crônica de oxigênio causada pela apneia desencadeia uma cascata de efeitos sistêmicos. A ciência é clara: tratar a apneia não é uma questão de conforto — é uma questão de saúde cardiovascular, metabólica e até mental.

A literatura científica associa a SAHOS não tratada a:

  • Hipertensão arterial sistêmica
  • Arritmias cardíacas
  • Infarto do miocárdio
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC)
  • Diabetes tipo 2 e resistência à insulina
  • Depressão e ansiedade
  • Refluxo gastroesofágico
  • Agravamento da insuficiência cardíaca
  • Risco aumentado em cirurgias com anestesia geral
  • Acidentes automobilísticos por sonolência

 

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine demonstrou que pacientes com apneia grave não tratada apresentam risco de morte por causas cardiovasculares até 5 vezes maior do que indivíduos sem a condição. A apneia do sono é, portanto, um fator de risco de morte — não um mero inconveniente noturno.

 

Como o diagnóstico é feito: a polissonografia

O exame padrão-ouro para o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono é a polissonografia — ou videopolissonografia quando inclui monitoramento por câmera. Realizado em laboratório do sono ou domiciliarmente (polissonografia portátil), o exame monitora simultaneamente:

  • Atividade cerebral (EEG)
  • Movimentos oculares (EOG)
  • Atividade muscular (EMG)
  • Frequência cardíaca e ritmo (ECG)
  • Saturação de oxigênio no sangue
  • Fluxo aéreo nasal e bucal
  • Esforço respiratório torácico e abdominal
  • Posição corporal durante o sono
  • Ronco (microfone)

 

O laudo é emitido por neurologista ou pneumologista especialista em medicina do sono e é indispensável para o planejamento do tratamento. Para a confecção de um aparelho intraoral adequado, o dentista especializado precisa analisar esse exame com cuidado — ele guia as decisões sobre o grau de avanço mandibular e os objetivos terapêuticos.

 

Opções de tratamento para ronco e apneia

O tratamento depende da gravidade da apneia, das características anatômicas do paciente e — fundamentalmente — da adesão ao método escolhido. Um tratamento que o paciente não consegue usar regularmente não traz benefício algum.

CPAP (pressão positiva contínua)

  • + Eficaz em todos os graus
  • + Resultados imediatos
  • – Máscara e barulho da máquina
  • – Dificulta intimidade
  • – Baixa adesão a longo prazo (46–83%)
  • – Incomoda em viagens
  • – Manutenção contínua

Existem ainda opções cirúrgicas (como a uvulopalatofaringoplastia) e de reposicionamento lingual, indicadas em casos selecionados e com critérios específicos. A combinação de tratamentos também é possível e frequentemente mais eficaz.

 

Aparelho de Avanço Mandibular: a solução que muitos ainda não conhecem

O Aparelho de Avanço Mandibular (AAM) — também chamado de aparelho intraoral ou dispositivo de retenção mandibular — é a intervenção da odontologia do sono para o tratamento do ronco e da apneia obstrutiva leve a moderada.

O mecanismo é preciso: o aparelho reposiciona a mandíbula em uma posição ligeiramente avançada em relação à sua posição de repouso. Esse avanço traciona a base da língua e as estruturas faríngeas para frente, aumentando o calibre das vias aéreas superiores e eliminando (ou reduzindo significativamente) o colapso que causa o ronco e a apneia.

Uma metanálise publicada no Journal of Clinical Sleep Medicine avaliando mais de 50 estudos controlados concluiu que o AAM reduz o IAH em média 50%, com benefícios adicionais sobre pressão arterial, saturação de oxigênio e qualidade de vida reportada pelos pacientes.

 

Por que tantas pessoas não conhecem essa opção?

Historicamente, o CPAP foi apresentado como o único tratamento “de verdade” para a apneia. Essa percepção está mudando. Diretrizes internacionais da AASM (American Academy of Sleep Medicine) e da AAO (American Academy of Oral Medicine) já reconhecem o AAM como tratamento de primeira linha para apneia leve a moderada e como alternativa de preferência para pacientes que não toleram o CPAP em casos graves.

 

Como o aparelho é fabricado e ajustado

Ao contrário dos modelos genéricos encontrados em farmácias, o AAM terapêutico é personalizado — confeccionado a partir de moldagens digitais ou físicas precisas dos arcos dentários do paciente. O dentista com formação em medicina do sono determina o grau de avanço inicial e realiza ajustes progressivos (titulação), guiado pela resposta clínica e pelos dados da polissonografia de controle.

  • Confecionado sob medida para cada paciente
  • Material biocompatível e durável
  • Ajuste progressivo do avanço mandibular
  • Usado somente durante o sono
  • Compatível com a maioria das próteses parciais fixas
  • Controle periódico com polissonografia

 

Para quem o AAM é especialmente indicado?

O aparelho de avanço mandibular é a escolha certa em várias situações clínicas:

  • Ronco primário (sem apneia confirmada)
  • Apneia leve (IAH 5–14/hora)
  • Apneia moderada (IAH 15–29/hora)
  • Intolerância ao CPAP por claustrofobia
  • Intolerância ao CPAP por ressecamento nasal
  • Intolerância ao CPAP por ruído da máquina
  • Dificuldade de dormir com a máscara
  • Viajantes frequentes
  • Pacientes que preferem tratamento sem aparelhos elétricos
  • Apneia grave que rejeita o CPAP (combinação possível)

Já usou o CPAP e desistiu? Você não está sozinho. Estudos de adesão mostram que até 50% dos usuários abandonam o CPAP no primeiro ano. O AAM tem índices de adesão superiores a 80% após 1 ano de uso — justamente por ser confortável, discreto e não interferir na dinâmica do casal.

Contraindicações e limitações

Como todo tratamento, o AAM tem suas limitações. Pacientes edêntulos totais (sem dentes), com disfunção temporomandibular (DTM) ativa não controlada, com apneia central (origem neurológica) ou com IAH acima de 30 eventos/hora sem alternativa ao CPAP precisam de avaliação diferenciada. Esses casos não são necessariamente excluídos — mas exigem planejamento mais cuidadoso.

 

A odontologia do sono e o papel do dentista especializado

A odontologia do sono é a área de interface entre a odontologia e a medicina do sono. O dentista capacitado nessa área não diagnostica a apneia — esse papel é do médico do sono. Mas ele é o profissional habilitado a confeccionar, ajustar e monitorar o aparelho intraoral, bem como avaliar se há condições odontológicas que possam interferir no tratamento.

A formação especializada do dentista em DTM (Disfunção Temporomandibular) é um diferencial relevante aqui: o avanço mandibular influencia a articulação temporomandibular, e um profissional com domínio dessa área é capaz de prevenir complicações articulares, ajustar o aparelho com segurança e garantir que o tratamento seja sustentável a longo prazo.

 

Você tem ronco ou apneia e ainda não foi avaliado?

A consulta de avaliação é o primeiro passo para entender se o aparelho de avanço mandibular é a solução certa para o seu caso. Sem compromisso de tratamento — apenas informação qualificada para você tomar a melhor decisão.

 

Dr. Victor Ferzeli

Especialista em DTM e Dor Orofacial · Capacitado em Ronco e Apneia do Sono · Mestre em Prótese com ênfase em DTM · Membro-fundador da Sociedade Brasileira de DTM e DOF · Palestrante nacional e internacional

Formação complementar em universidades como UCLA (EUA), University of Iowa (EUA), Universität Zürich (SUI), Paris 7 (FRA) e Gotemburgo (SUE). Mais de 1.200 dentistas formados no Brasil e no exterior.

Referências científicas

  1. Benjafield AV et al. “Estimation of the global prevalence and burden of obstructive sleep apnoea.” The Lancet Respiratory Medicine, 2019.
  2. Peppard PE et al. “Increased Prevalence of Sleep-Disordered Breathing in Adults.” American Journal of Epidemiology, 2013.
  3. Tufik S et al. “Obstructive sleep apnea syndrome in the São Paulo Epidemiologic Sleep Study.” Sleep Medicine, 2010.
  4. Marin JM et al. “Long-term cardiovascular outcomes in men with obstructive sleep apnoea-hypopnoea with or without treatment with continuous positive airway pressure.” The Lancet, 2005.
  5. Sutherland K et al. “Oral appliance treatment for obstructive sleep apnea: an update.” Journal of Clinical Sleep Medicine, 2014.
  6. Ramar K et al. “Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Snoring with Oral Appliance Therapy.” Journal of Clinical Sleep Medicine, AASM/AADSM, 2015.
  7. Dieltjens M, Vanderveken OM. “Oral Appliances in Obstructive Sleep Apnea.” Healthcare (Basel), 2019.
  8. Dort L et al. “Mandibular Advancement Splints: Titration and Treatment Outcomes.” Sleep and Breathing, 2012.
  9. Aarab G et al. “Effects of an oral appliance with different mandibular protrusion positions at a constant vertical dimension on obstructive sleep apnea.” Clinical Oral Investigations, 2010.
  10. Weaver TE, Grunstein RR. “Adherence to Continuous Positive Airway Pressure Therapy: The Challenge to Effective Treatment.” Proceedings of the American Thoracic Society, 2008.

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